MORREU FELIZ – Parte 5
Faltou o chão, a vista escureceu. Cairia, não estivesse sentada. Mas amoleceu. A cabeça para frente, o queixo no peito. (Instintivo? Ou proposital, para esconder o tremor nos lábios e a torrente das lágrimas que explodiram?).
A cabeça vazia de pensamentos. A alma repleta de emoções. Todas ao mesmo tempo, não saberia definir a que prevalecia: tristeza, ódio, inconformismo, perda, abandono, dor, muita dor.
- E a depressão.
- Ainda não. Passado o choque inicial, tudo isso se transforma num só sentimento: esperança. E se ludibriava:
-Ele volta. Não dou uma semana. É só esperar. Em quase dois anos nunca brigamos, por que seria agora? E quase sem explicações! Voltaria, sim. Pelo menos para uma boa conversa olho no olho, uma tentativa de volta. Uma semana se passa, e nada. Ela continuava se iludindo:
- Ele deve estar sem coragem, daqui uma semana, quando a saudade apertar ele volta.
Não voltou, e a vida foi passando pelo leito do tempo, como as águas descem o rio.
- É, o tempo é mesmo insensível, segue impassível o seu ritmo, indiferente aos dramas pessoais.
E o tempo foi passando, agoniadamente lento. - E semana após semana, transformando-se em meses, longos, angustiantes.
O pulo no coração a cada toque do telefone. O tempo. “O tempo cura todas as feridas”, dizem. Como podem saber isso? Como podem saber a extensão da ferida e sua profundidade? Não é uma ferida. Um pedaço foi extraído, não se recupera. Pode se recuperar superficialmente, mas lá dentro, o buraco. Esse ninguém vê. Nem com radiografia, ultrassonografia, tomografia, porque não é no corpo. É um vazio na alma. Uma alma que nunca mais será a mesma.
- Nossa, que sensível essa moça! Ouvindo você falar assim até dá vontade de chorar também.
- Não te falei? Ela sentia tudo muito intensamente.
Meses, muitos meses nessa agonia. Passou a não comer, não dormir direito. Emagreceu. A mãe, preocupada, levou-a ao médico. A depressão. Os remédios, os conselhos: precisa sair, distrair-se, arejar a cabeça, conhecer outras pessoas. A vida continua...
- Mas não do jeito que a gente quer, né? E como o caso termina?
- Calma, que tem mais. A vida continuou mas, como um carro rodando com um pneu estepe, provisoriamente. Um dia coloca-se o pneu novo. Mas não é o mesmo pneu, talvez nem a mesma marca. O carro roda, mas não é o mesmo carro. Ou como um filme que não se consegue ver o final, porque acaba a luz no cinema...
(continua)
Primavera Azul
Enviado por Primavera Azul em 04/11/2013
Alterado em 10/02/2014