Vera Barbosa

A maioria das coisas importantes que aprendo vêm de dentro, e não de fora de mim.

Textos


                         MORREU FELIZ – Final
 
 A frustração. Talvez nunca mais veja o final. Talvez sim, mas não com a mesma companhia. Haverá outros filmes, talvez melhores. Mas esse será o inesquecível, porque inacabado, indecifrável. Outras companhias aparecerão. Talvez melhores. Mas aquela será a inesquecível.
- Tudo o que perdemos é melhor do que o que podemos ter.
- Mas ela não perdia a esperança de voltar a encontrá-lo.
- Não? Vai me dizer que botou detetive...
- Não, mas em seus devaneios, imaginava um reencontro inesperado, uma nova oportunidade de poder ao menos vê-lo de longe, ou trocar um olhar, ainda que ele não a reconhecesse. Dizia que morreria feliz se isso acontecesse.
- Essa se contentava com pouco.
- Quando não se tem nada, o pouco pode ser tudo! Ficou sabendo de um caso em que a mulher reencontrou o namorado dos tempos de juventude e, ambos viúvos, casaram-se e viveram felizes o resto de vida que tiveram. A esperança voltou.
- Também já ouvi falar de acontecimentos assim. É emocionante. Há também casos em que a vida reúne, depois de muitos anos, pessoas de uma mesma família que haviam sido separados na infância, irmãos, por exemplo.
- Então, parece que ela se fiou tanto nessa ajuda da providência que um dia aconteceu.
- O que aconteceu? Quando? Como?
- Vamos por partes. Aconteceu o que ela tanto esperara. Um dia, num futuro muito distante, numa dessas cambalhotas da vida, numa dessas peças que a vida prega, no virar uma esquina ou atravessar uma rua...
Aconteceu num momento já inesperado, impensável, imprevisível.
- Que agonia, aconteceu o quê?
- Ela o avista na mesma calçada, indo em sua direção.
- Nossa! Arrepiei. E aí?
- O mesmo pulo no coração. O mesmo tremor nos lábios. As mesmas lágrimas. Mas dessa vez a cabeça não pende: olha para frente, bem à sua frente, aquela figura tão amada, já envelhecida, é claro, mas tão igual, e aqueles mesmos olhos que também a fitam. E os quase quarenta anos de separação rapidamente se consomem no fogo daquela troca de olhares. A antiga paixão interrompida acende-se exponencialmente e ambos, sem qualquer palavra que pudesse expressar aquele momento, simplesmente caminham um para o outro. Aqueles braços que tanto desejara, novamente estendidos em sua direção.
- Então compensou a espera, ele também não a esquecera!
- É, mas de novo o inesperado, o inelutável.
- Ele estava casado?
- Não é isso. Ela vai até ele, e se aninha em seus braços, como antigamente. E ouve aquela voz, que não envelheceu, dizer seu nome. Esboça um sorriso maravilhado; os olhos, incrédulos e flamejantes de lágrimas felizes contemplam aqueles olhos adorados, enquanto vão-se fechando suavemente. O corpo amolece. As pernas se dobram...
O coração para.
 
 
                           THE END
Primavera Azul
Enviado por Primavera Azul em 04/11/2013


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